#diário

pasquinada

Pode-se-lhe chamar passatempo, hobbie, defeito de formação, sei lá. O que sei é que gosto de esmiuçar as palavras, abrir-lhes as entranhas e procurar o que as fez nascer e dar-lhes vida.

Numa recente estadia em Roma, encontrei, num momento aleatório, a oportunidade de deleite nesta área. Estávamos ali, na praça Navona, quando a interpelação de um dos nossos cicerones — por acaso, uma — nos leva a uma praceta contígua, de nome piazza di Pasquino.

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Verdade seja dita: o lugar não tem nada que os olhos de um turista possam admirar. Estamos em Roma: aquela é uma vulgar praça com construção típica, comércio típico, trânsito típico. Portanto, aparentemente essa vulgaridade seria motivo de desinteresse não fosse o enquadramento histórico daquele espaço.

Pasquino é o nome da estátua parlante mais famosa de Roma.

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De certeza, não será famosa pelos seus atributos escultóricos e beleza estética. Na verdade, parece mais um resto de estátua, arrumada num canto da cidade.

As statue parlanti di Roma ou Congrega degli Arguti foram uma série de estátuas — tradicionalmente seis — em que, a partir o século XVI, se imortalizaram sátiras contra tentativas de repressão de papas, cardeais e nobres. Essas estátuas tornaram-se numa alternativa para a expressão política anónima em Roma. As críticas, na forma de poemas ou gracejos, eram publicadas nas estátuas mais conhecidas de Roma, como uma instância dos primeiros quadros de avisos (cfr. wikipedia).

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O que torna esta em particular tão especial — para além de ter sido a primeira a surgir — é o facto de ter dado origem à palavra pasquim e, por conseguinte, pasquinada.

Hoje em dia, o termo pasquim — que foi título de um semanário satírico brasileiro nos anos 70 e 80 — é comummente depreciativo e significa jornal de baixa qualidade, sem importância, jornaleco (cfr. Priberam).

[Adenda] No Ciberdúvidas fui encontrar, ainda, estas informações:

Pasquim vem do italiano «Pasquino», nome de um sapateiro romano do século XV: à porta da oficina, foi encontrada uma estátua helénica do século III a.C., e criou-se o costume de nela colocar bilhetes satíricos, nem sempre primando pela elevação da linguagem.
Cada um destes recados passou a ser conhecido pelo nome do sapateiro. Pasquino ultrapassou fronteiras e foi aportuguesado como pasquim, denominação muitas vezes pejorativa de um jornal, mas nem sempre.
A história do melhor jornalismo satírico, se quiser ser objectiva, nunca poderá ignorar um periódico brasileiro – chamado, exactamente, “O Pasquim”.

N.E.: Segundo o dicionário Aurélio, a palavra Pasquim significa um jornal ou panfleto difamador ou uma sátira afixada em lugar público. José Pedro Machado conta a história do termo: chegou ao português através do francês, com origem na palavra italiana antiga «pasquino».
Pasquino era o nome de uma estátua mutilada, achada na Rua del Governo-Vecchio em Roma, colocada depois numa pequena praça que acabou por receber este nome. Ficava defronte da estátua de Marfório e os satíricos divertiam-se em afixar perguntas no pedestal de Marfório cujas respostas – já preparadas – eram afixadas no pedestal da estátua de Pasquino. Ele conta que Castelvetro, no livro Ragione d’alcune core (1560), afirmou que o nome da estátua veio de um alfaiate que morava perto do local onde o torso de mármore foi encontrado e que era muito mordaz.
Durante o regime militar no Brasil, foi criado um jornal humorístico que ironicamente recebeu o título de Pasquim. Nele participaram alguns dos mais importantes nomes do humor brasileiro, como Millor Fernandes, Ziraldo e Jaguar. O facto de este jornal conseguir fazer rir a respeito do regime autoritário levou a que o nome pasquim perdesse, no Brasil, um pouco do seu sentido pejorativo. O mesmo não ocorreu em Portugal.

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artes

olhar para cima e espantar-se 2.0

Conforme prometido — a mim mesmo, diga-se —, aqui está a outra igreja que, de entre as centenas que existem em Roma, me deixou de olhos esbugalhados e torcicolo onde assenta a cabeça. A caminho da Igreja de Santo Inácio de Loyola, um dos nossos guias ia dizendo ao que íamos: o enfoque era a “cúpula”. (E, aqui, as aspas nunca fizeram tanto sentido, já que não falamos propriamente de uma cúpula, mas de um tecto completamente plano.) Esta tem a particularidade de iludir o olho do visitante por, à entrada, parecer uma cúpula normal, destacando-se pela sua tez escura.

Porém, estamos diante dum exemplar daquela técnica designada por trompe l’oeil, que se serve de truques de perspectiva para iludir o olhar. Portanto, é isto que, na prática, está pintado:

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Pelo que li, os jesuítas contrataram Andreas Pozzo para fazer aquela pintura, porque fazer uma cúpula como deve ser, iria provocar uma séria derrapagem no orçamento.

Mas, lá dentro, aquela obra viu-se ultrapassada de imediato pela grandiloquência da pintura na abóbada da nave principal, também ela do mesmo autor — por muitos considerada a sua obra-prima — , conhecida por apoteose de Santo Inácio.

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Como se pode verificar, trata-se de uma abóbada normal, semi-cilíndrica, a que o autor, quiçá por inspiração divina, nos deslumbra com isto:

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O efeito da ilusão é tão convincente que o espaço literalmente suga o observador e o incorpora aos eventos mostrados na pintura. Através da contemplação das figuras pintadas no teto, o corpo físico do observador como que perde peso e é atraído para o céu através de uma descrição artística de uma verticalidade até então inédita. (Grau, Oliver. Virtual art: from illusion to immersion. MIT Press, 2004, pp. 48-49. Transcrito da wikipédia)

Infelizmente, não me é possível reproduzir aqui as sensações provocadas e a vontade de estar ali horas a contemplar aquele fresco naquele espaço que acaba por se revelar tão aberto, que nos remete inapelavelmente para o alto, dando continuidade às paredes levantadas pelos cantoneiros.

Tracei aqui umas linhas para se perceber melhor:

E aqui:

De referir que a primeira linha inferior indica a parte superior da parede e, por conseguinte, o início da abóbada propriamente dita, onde pontificam mais dois níveis arquitectónicos e a posterior abertura que remete para a figura central que é o próprio Cristo (e não Santo Inácio, como podem, compreensivelmente, imaginar).

O observador é capturado por um arroubo de beatitude, cuja meta e ponto final é a figura de Cristo… a composição integral pode ser comparada a um remoinho centrífugo que nos faz perder a consciência, transporta-nos para a eternidade e nela nos ancora. (Grau, Oliver. Virtual art: from illusion to immersion. MIT Press, 2004, pp. 48-49. Transcrito da wikipédia)

Gostaria de ter captado imagens de cada rosto, cada elemento, cada motivo daquela imponente pintura. Apesar de não ter sido possível, deixo aqui algumas que têm o condão de nos fazer sentir pequeninos e com uma vontade imensa de também treparmos por aquelas colunas.

Reparem no desdém com que algumas dessas personagens nos olham:

 

Galeria completa

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#diário, artes

ser feliz a olhar para cima e espantar-se

— Gostava que visses! — É assim que, não raras vezes, terminamos uma narrativa para a qual não conseguimos arranjar palavras, as palavras certas, aquelas que levam o interlocutor a ver o mesmo que nós vimos.

A visitar Roma, experimentamos esta sensação no regresso. A sua monumentalidade é qualquer coisa de fascinante. Arregala-nos todos os sentidos e deixa-nos com aquela insatisfação que nos faz desejar voltar e ficar ainda mais tempo, o tempo suficiente para nos deliciarmo-nos com cada pormenor, cada tom de cor, cada toque de cinzel.

Da cidade eterna, há paradigmas dessa monumentalidade que nos vêm logo à mente: a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina, a fonte de Trevi (?) e o Coliseu. Todavia, não menosprezando estes três exemplos, o que me deixou mais com a boca aberta de espanto, foram os tectos de duas igrejas, no meio das 800 que Roma tem. Deixo aqui uma, a primeira da cronologia da visita: a Chiesa del Gesù.

Assim que entramos no edifício, qualquer coisa nos obriga a olhar para cima, num exemplo claro de como a arte tem uma imanente presença do Divino. E experimentem olhar para cima, na vertical: por imperativo fisiológico, não temos outro remédio que não ficarmos de boca aberta. E aconteceu. Lembro-me, como se fosse agora, de que a primeira coisa que vi foi uma nuvem suspensa no ar, da qual se dependuravam, muito etereamente, algumas personagens. (ver a imagem que serve de destaque a este post). Seria apenas um pequeno pormenor que me obrigaria a uma exclamativa incursão por todo o tecto do edifício de que a imagem seguinte revela a nave principal.

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Voltando à nuvem, o pormenor que me deixou espantado foi, exactamente, a sua aparente tridimensionalidade. Sim, APARENTE; porque estamos a falar de uma vulgar abóbada cilíndrica completamente lisa, apenas recortada pelo alto relevo dos elementos em talha dourada. E confesso que ainda hoje terei algumas dúvidas de que a dita talha seja mesmo em alto relevo e não uma simples e ilusória pintura como os restantes frescos da igreja. O artista — Giovan Battista Gaulli — não deixou os seus créditos por pincéis alheios e criou qualquer coisa de fantástico e sublime, dando-se ao trabalho de escurecer determinadas zonas da película dourada, criando aquele efeito assombroso.

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Essa técnica, conjugada com o facto da pintura sair dos espaços definidos pelas molduras, está presente em todo edifício.

Repare-se no escurecimento de um pormenor escultórico:

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E, agora, digam lá se é evidente que aqueles elementos são, de facto, esculturas. Não serão pinturas, tal como os restantes?

Depois desta visita, acrescentei mais um ponto à minha wishlist: fotografar cada rosto daquela imensa obra de arte. Por agora, apenas vos convido a observá-la mais em pormenor através destas fotografias que vos disponho.

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