#diário, artes

ser feliz a olhar para cima e espantar-se

— Gostava que visses! — É assim que, não raras vezes, terminamos uma narrativa para a qual não conseguimos arranjar palavras, as palavras certas, aquelas que levam o interlocutor a ver o mesmo que nós vimos.

A visitar Roma, experimentamos esta sensação no regresso. A sua monumentalidade é qualquer coisa de fascinante. Arregala-nos todos os sentidos e deixa-nos com aquela insatisfação que nos faz desejar voltar e ficar ainda mais tempo, o tempo suficiente para nos deliciarmo-nos com cada pormenor, cada tom de cor, cada toque de cinzel.

Da cidade eterna, há paradigmas dessa monumentalidade que nos vêm logo à mente: a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina, a fonte de Trevi (?) e o Coliseu. Todavia, não menosprezando estes três exemplos, o que me deixou mais com a boca aberta de espanto, foram os tectos de duas igrejas, no meio das 800 que Roma tem. Deixo aqui uma, a primeira da cronologia da visita: a Chiesa del Gesù.

Assim que entramos no edifício, qualquer coisa nos obriga a olhar para cima, num exemplo claro de como a arte tem uma imanente presença do Divino. E experimentem olhar para cima, na vertical: por imperativo fisiológico, não temos outro remédio que não ficarmos de boca aberta. E aconteceu. Lembro-me, como se fosse agora, de que a primeira coisa que vi foi uma nuvem suspensa no ar, da qual se dependuravam, muito etereamente, algumas personagens. (ver a imagem que serve de destaque a este post). Seria apenas um pequeno pormenor que me obrigaria a uma exclamativa incursão por todo o tecto do edifício de que a imagem seguinte revela a nave principal.

0740_201705210736

Voltando à nuvem, o pormenor que me deixou espantado foi, exactamente, a sua aparente tridimensionalidade. Sim, APARENTE; porque estamos a falar de uma vulgar abóbada cilíndrica completamente lisa, apenas recortada pelo alto relevo dos elementos em talha dourada. E confesso que ainda hoje terei algumas dúvidas de que a dita talha seja mesmo em alto relevo e não uma simples e ilusória pintura como os restantes frescos da igreja. O artista — Giovan Battista Gaulli — não deixou os seus créditos por pincéis alheios e criou qualquer coisa de fantástico e sublime, dando-se ao trabalho de escurecer determinadas zonas da película dourada, criando aquele efeito assombroso.

0742_201705210736_

Essa técnica, conjugada com o facto da pintura sair dos espaços definidos pelas molduras, está presente em todo edifício.

Repare-se no escurecimento de um pormenor escultórico:

0739_201705210735

E, agora, digam lá se é evidente que aqueles elementos são, de facto, esculturas. Não serão pinturas, tal como os restantes?

Depois desta visita, acrescentei mais um ponto à minha wishlist: fotografar cada rosto daquela imensa obra de arte. Por agora, apenas vos convido a observá-la mais em pormenor através destas fotografias que vos disponho.

Standard
#garatujas, #maufeitio

Provocar

Na minha actividade profissional aprendi que o pior que podemos fazer é tentar agradar às pessoas. Ou, pelo menos, ao maior número de pessoas possível. Na prática, quando produzo uma obra gráfica e visual – design, arte? –  não me interessa se ela vai agradar ou não a quem a vê. Não me interessa o número de “likes” que faz. Quero dizer: é importante para mim que gostem do que faço, porque isso alimenta a minha motivação, mas não é isso que vai definir o meu rumo, as minhas opções e o meu estilo.

Um artista – deixem-me usar esta palavra -, quando cria, tem um objectivo: provocar. Provocar, no verdadeiro e original sentido da palavra: estimular, desafiar, apelar para um sentido específico, numa determinada direcção. A obra não é produzida para quem gosta, nem para quem não gosta. A obra será apenas para os que fazem a pergunta certa, independentemente de gostarem ou não. Todavia, para fazer a pergunta certa será preciso estar na pele do criador. Talvez, neste particular, haja muito a aprender com as crianças que, na sua simplicidade e sede de conhecimento, fazem “a” pergunta, a mãe de todas as questões: porquê? E esta interrogação é, no fim, a verdadeira provocação.

Assim, quando vos passar pela frente uma criação artística, nem precisam de a apreciar. Bastará perguntarem “porquê”. Por que é que o artista escolheu este desenho? Por que razão pintou com aquelas cores? Questionem… É isso que ele espera, e não o favor de gostarem.

Post Scriptum: E com este #maufeitio espero ter retomado a actividade no blogue, depois de tão longa ausência…

Standard