#maufeitio

eu quero um festival só para mim

— Uma vergonha não deixarem entrar uma pessoa às 02h30!

Foi assim que alguém publicou o seu desabafo na rede social por ocasião de um festival organizado na freguesia de Amor. E juntaram-se a ele, mais dois ou três cibernautas, indignados com a suposta prematuridade da hora de fecho da festas. Que era incompreensível, que os festivais não são assim, que também compraram bilhete (que custa 6 euros para os três dias de festival), que não se fecham as portas a ninguém, que… que… que… O rol de críticas, não sendo avantajado, estava bem direccionado.

Num tempo em que se proclama a tolerância — para mim, tolerantismo — à boca cheia, estranha-se a forma como as pessoas se atrevem a debitar as suas opiniões pelo espaço virtual. Mas, mais do que isso, esta situação concreta faz-me trazer à baila algumas considerações.

Desde logo, a forma impositiva como queremos as coisas à nossa medida. Exigir que um evento se adapte ao nosso estilo de vida, fará sentido se for feito por nós e para pessoas como nós. Caso contrário, apenas estamos a querer obrigar os outros aos nossos hábitos e maneiras de pensar e agir. Neste caso concreto, falamos de alguém que gosta de se divertir pela noite fora até o sol nascer. E todas aquelas pessoas que, por obrigações familiares e profissionais, ou até mesmo por princípio de vida, preferem aproveitar o dia enquanto está sol? Ou serão os festivais apenas para o primeiro grupo?

Infelizmente, parece que essa concepção já está entranhada na nossa cultura: a festa faz-se de noite. Ou melhor, de madrugada, até ao sol raiar. Isso tornou-se quase uma obrigação. Parece que, por definição, ninguém consegue divertir-se antes das três da madrugada. E talvez por isso seja comum os programas das festas nunca obedecerem aos horários fixados: uma banda prevista para as 22h00, geralmente actuará pelo menos uma hora depois, na melhor das hipóteses.

A verdade é que isso é apenas uma transposição do que acontece no nosso dia-a-dia. Aquela instituição chamada de “quarto de hora académico” é das coisas mais “non-sense” e estúpidas com que convivemos airosamente sem sequer a pormos em causa. Para mim, é apenas uma faceta da promoção da falta de respeito e do culto das desoras. Objectivamente, as contas são fáceis de fazer: se uma dezena de pessoas marcou o encontro para uma hora e, mesmo chegando nove a tempo, o “quarto de hora académico” invocado pela décima, mais não fez do que deitar fora 150 minutos que tanto jeito dariam.

— Por estas e por outras, que nem sei quais, nem interessa, quero o festival só para mim, que comece às horas a que nem sei que vou chegar!

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