#maufeitio

ensinar a missa ao padre

Há três assuntos que devem ser evitados em discussões públicas: futebol, política e religião. Foi o que me ensinaram, comprovei-o na prática e é do senso comum. Infelizmente, este senso não é assim tão comum como o pintam. A começar pelo meu que, invariavelmente sente uma atração especial por este abismo de argumentações. Desta vez, calhou o terceiro na rifa. Falar de religião é coisa funesta. Seja com quem for. Até com padres, como foi o caso.

Verdade seja dita, falo muito com padres. Tenho muitos amigos padres e, por isso, não é intenção – longe disso – generalizar. Mas esta ficou-se-me atravessada aqui na zona do cabeção. Não cometo nenhuma inconfidência, porque está tudo aí, à distância de um clic, disseminado pela rede.

16473972_1297306356995944_669370903862384876_n

Caramba, é assim que ilustras um trecho do novo testamento?

Aconteceu horas daquele sismo que nem senti: no perfil pessoal de um prelado, uma foto dizia-me “olha para mim”. Era uma caveira, em fundo escuro, reminiscências gothic. Ao lado, uma citação bíblica onde a palavra morte abafa por completo todas as outras. Se o gosto, sendo uma opção, era duvidoso, já o texto a que a imagem servia de ilustração, seria bem actual se estivéssemos na idade média. Não sendo estas as palavras, a ideia está aqui: as catástrofes naturais são recados do divino para quem o quiser ouvir. Grosso modo, quando troveja é Deus a ralhar connosco.

Não me benzi, mas senti um valha-me Deus a subir pela espinal. Há quem lhe chame arrepios. A ideia até nem é pouco habitual. Como diz a Raposa de Saint-Exupéry: vê-se cada coisa… Agora, ler isso de um padre nesse grande púlpito que é a social web, deixa-me em pior estado que vergastadas de cilício.

– Caramba, és padre, devias anunciar o mesmo Deus que Jesus te ensinou a pregar! Sim, aquele Deus que é Pai, Mãe. Aquele que vai à procura da ovelha que se perde, e a abraça quando a encontra. Aquele que acolhe o ladrão, o cobrador, a adúltera… Mas, não; fazes questão de nos ameaçar com o fogo dos infernos e o diabo a sete. Vade retro.

Ainda esbocei uma argumentaçãozita em vários comentários. Também tive a ajuda de outro padre que estava no mesmo lado da barricada que eu. Depressa desisti(mos). Como sói dizer-se: é chover no molhado. A palavra final acabou por ser de uma das prosélitas, senhora já bem entradota, de crisma recente, funcionária da Universidade Católica desde o ano anterior ao meu ingresso para conclusão do curso de Teologia: “se calhar é melhor ir-se embora; quando já não há mais conhecimento, o melhor é meter a viola no saco e ir embora”.

Que bardo que eu sou!

Standard