#maufeitio

as árvores vivem de pé

Este ano, passou-me pela cabeça fazer uma árvore de natal diferente. Passou-me e ficou. Daí até pôr mãos à obra, fui um pulinho enquanto o diabo esfregou o olho. Um deles. Numa das imensas navegações pelo mar virtual, houve uma que acabei por arriscar. Juntei a matéria prima necessária, pouca e económica: cartão, fio de pesca e pouco mais. Os miúdos não podiam ficar de fora na fabricação de tal engenho, e o primeiro de dezembro foi a oportunidade que faltava. Aos primeiros passos da bricolage, lá expliquei ao João o que pretendia.

– E a árvore de natal? – Pergunta, desconfiado.

Disse que seria aquela, diferente, e que ele ia gostar muito. Mais adiante, já a estrutura estava feita o João, desconsolado, mostrava o seu desagrado:

– Mas eu queria uma árvore de natal a sério!

– Esta é a sério! E moderna. Tu vais gostar quando ela estiver pronta. – Expliquei.

Lá a levei para a sala. Passámos à decoração com as fitas e bolas. Parece que o descontentamento do miúdo se apoderou de mim: não estava a gostar do resultado. Não era uma árvore. Não parecia, sequer, uma árvore de natal, apesar de todos os enfeites.

Há alturas em que temos de voltar atrás. Há alturas em que temos de admitir que o melhor é o que sempre foi feito. E, nestas coisas do natal, atesta-se que as crianças vêem mais à frente: uma árvore é verde e tem um tronco e ramos. Por mais que o tentem, um cone de com fitas e bolinhas nunca será uma árvore.

Assumido o meu fracasso, lá voltei à arrecadação para desembrulhar a pequena árvore que nos fará companhia pelo décimo natal consecutivo. A anterior ideia mirabolante, teve o destino que só imaginei depois de a ver: lixo.

P.S. Há uns dias, ouvi um padre afirmar durante a homilia que as árvores de natal eram coisa pagã, fazendo a assembleia deduzir que ele rejeitava o uso deste símbolo. Apeteceu-me dizer-lhe das boas, a começar por “e se fosses um bocadinho mais sensato?…”. Uma das coisas que me deixa fulo, é a incapacidade que uma franja do clero tem para a pedagogia. Pior: a falta de conhecimento histórico da origem e significado de algumas tradições.

E, sim, o presépio continua a ser o quadro principal lá na nossa sala de estar.

P.S. (2) O título foi bem esgalhado, não? Reminiscência desse clássico do teatro que esteve presente na minha adolescência, numa adaptação em que participei…

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#maufeitio

pastoral olfactiva? não me cheira.

O motivo desta reflexão, conta-se em poucas palavras. Passei a manhã num edifício da Diocese onde se realizam inúmeras actividades de cariz religioso e pastoral. Estava lá, como normalmente, em trabalho. A dado momento, ao atravessar um corredor, passo pela entrada de uma sala que, na altura estava a ser usada por um grupo. Nada de novo aqui, a não ser um pormenor que me chamou a atenção: o cheiro que dali emanava. Um odor com um misto de flores com prazo de validade ultrapassado e madeira velha e bafienta. Não era agradável, antes pelo contrário.

Isto foi o suficiente para me fazer despertar algumas considerações à volta dos sentidos e das suas implicações na pastoral.

Comummente, damos mais importância a dois canais de informação, a saber: visão e audição. Inversamente, é notório o desprezo a que se votam os restantes sentidos, nomeadamente o do olfacto. E não será descabido perceber que essa indiferença tem consequências negativas na actividade pastoral da Igreja.

Concretizemos. Ao entrarmos num espaço com um odor desagradável, o normal será termos vontade de estar ali o menor tempo possível. E os espaços fechados, pouco zelados e com humidades, são locais potenciadores deste tipo de cheiros. É frequente entramos numa igreja e sentirmos aquele tão típico aroma a mofo, bafio e humidade. Com toda a certeza, não houve o cuidado de arejar e deixar entrar a luz. Digo uma igreja, mas poderia também referir uma sala de catequese ou de reuniões num qualquer centro pastoral.

Agora, façamos a ligação entre esta situação recorrente e aquela afirmação que toda a gente conhece: a Igreja tem cada vez menos jovens. Independentemente de ser verdade ou não, esta constatação não será também uma consequência da falta de sensibilidade dos agentes de pastoral para o cuidado que devem ter com os espaços e os cheiros que deles emanam? Vamos ainda mais longe: este real cheiro bafiento, não será uma expressão física da maneira como a Igreja – os cristãos – se apresenta às pessoas? E isto é, no mínimo, estranho quando, no léxico litúrgico, celebrativo e pastoral, existem palavras fortes, tais como: luz, sopro, ar, porta, janela, etc… Não é preciso procurar muito no evangelho, para encontrar estas referências, tal a sua importância.

Torna-se, então, evidente o desajuste entre a mensagem e a forma. Por um lado, temos uma Igreja que diz ser o caminho para a Luz, que abre as portas a todas as pessoas. Todavia, logo a seguir, fecha as mesmas portas para que ninguém saia, e as janelas, não vá o sol cegar. E ainda recheiam os edifícios até à exaustão com flores, que mais não fazem do que ir apodrecendo lentamente, deixando no ar um aroma putrefacto e húmido.

Se não arejamos a nossa casa, não vamos culpar as pessoas de não quererem entrar? Ou vamos?

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#maufeitio

o silêncio dos culpados

O advento das redes sociais trouxeram para o nosso quotidiano aquele fenómeno que, até então, era aplicado quase exclusivamente ao jornalismo: a espiral do silêncio. De uma maneira simplista, esta teoria trazida à luz na década de 60 por Elisabeth Noelle-Neumann, explica que, por um lado existe uma tendência inata para se pertencer à opinião dominante e por outro lado – do meu ponto de vista, o mais importante – uma propensão para abafarmos as nossas ideias quando estas não coincidem a da maioria. As razões são diversas mas, na sua génese estão a necessidade de aceitação ou o medo da rejeição.

À laia de exemplo, o que se passa nos facebooks e quejandos, por mais informais que sejam, é paradigmático: a nossa vontade de comentar uma ideia é inversamente proporcional à nossa ligação a essa mesma ideia.  Temos mais relutância em participar em fóruns quando a opinião mais comum é diametralmente oposta à nossa. Nesta postura está também um pouco aquela ideia: nunca discutas com idiotas

O que se passou nas eleições norte-americanas explica-se, em parte, tendo como pano de fundo este contexto. Era notório que a opinião publicada e a que a maioria fazia questão de divulgar em todos os canais de comunicação, apontava numa direcção comum: a rejeição do candidato republicano. As sondagens, por sua vez, demonstravam em uníssono essa tendência. Todavia, o dia 8 de novembro encarregou-se de mostrar que as coisas não são bem assim. Afinal, havia uma grande franja do eleitorado que, não se manifestando nos círculos informativos e, diria mesmo, repudiando essa simbiose entre as comunicações política e social, acabou por manifestar na urna o seu voto que, evidentemente foi no sentido contrário ao da opinião dominante. Não quiseram ou faziam questão de não querer participar na discussão pública e, no fim, foi a ver-se e eram mais do que se imaginava…

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#garatujas

a coisa ’tá preta

magia-do-amor-cartaz

A Magia do Amor. Cartaz para o 3xSim

– ‘Tá muito escuro…

A probabilidade de ouvir esta frase quando se apresenta um trabalho em que o fundo dominante é o preto, é tão elevada como um ovo partir-se quando cai ao chão. Tudo bem: o chão estará limpo e o ovo aproveita-se para uma omelete.

A percepção visual é uma coisa tão estranha, como estranha é a forma do nosso cérebro processar a informação, tantas vezes diferente daquilo que julgamos.

Quem diz que “está muito escuro”, com quase toda a certeza, ainda não interiorizou bem a capacidade que a luz e a cor têm para ganhar vida em ambiente adverso. Neste caso, ambiente adverso é um ambiente sem luz e sem cor. Estas têm mais brilho, conquistam mais importância, são mais valiosas quando rompem com a escuridão.

Quando o tema é a magia e a ilusão, o escuro exponencia ainda mais a sua função. Por um lado, direcciona o olhar para o que é mais importante: o truque e a manipulação. Por outro lado, ao reduzir todas as distrações e, por conseguinte, qualquer hipótese de sombra, aumenta a a possibilidade do momento ter o sucesso pretendido, eliminando elementos que poderiam denunciar a ilusão e deitar por água abaixo uma das sensações mais fantásticas de um truque de ilusionismo: o mistério.

Portanto, na próxima vez, podem dizer:

– ‘Tá muito escuro… e ainda bem, porque assim consigo ver melhor.

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#maufeitio

Ossos do orifício

A sério?! É assim que querem convencer o pessoal a fazer reciclagem?

Não é que eu precise de ser convencido. Já reciclo há muitos anos. E, antes de o fazer, reutilizo, que é bem mais ecológico. Agora, faz-me uma espécie de confusão, para não dizer que fico mais danado que as cobras, ir até ao ecoponto mais perto da minha casa e ter de fazer exercícios impossíveis de compactação de lixos.

Cá entre nós, o engenheiro (?) que desenhou (?) aqueles caixotes tricolores estaria bem servido de alucinogénios potentíssimos. Deixo alguns amargos exemplos.

À beira da minha secretária, tenho uma daquelas caixas de cartão que levam cinco resmas de papel A4. Serve para colocar o papel devidamente utilizado dos dois lados. Estando cheia, o destino é o normal: ecoponto azul. Agora experimentem introduzir essa caixa cheia de papel pelo orifício devido. O do ecoponto, entenda-se. Se não experimentaram, eu digo: não dá. E estamos a falar de um volume relativamente pequeno. Agora, tentem reciclar a caixa de cartão onde veio o vosso frigorífico. Talvez desistam e o façam juntar ao lixo orgânico.

E pago eu a taxa mensal de tratamento de lixo…

Outra. Convidaram os vossos amigos para um churrasco. Beberam uma grade de minis. No dia seguinte, toca de ir ao caixote verde. Procedimento: introduzir cada garrafinha, uma a uma, pelo orifício (continua a ser o do ecoponto), que até tem uma espécie de vassourinha (para quê?) em todo o perímetro. Sem exagerar, perco uma tarde inteira a reciclar duas dúzias de garrafas de cerveja.

Aqui há uns dias, quis reciclar um garrafão de vidro. “Ah, esses não cabem, a não ser que os parta em bocadinhos”, responde-me o caixote. Rai’s parta!

E pago eu a taxa mensal de tratamento de lixo…

E, de modos que é assim. A vontade que eu tenho de pôr o lixo pelo orifício… do engenheiro dos caixotes, entenda-se.

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#maufeitio

as batidas do teu coração

Passar ao lado.

Passar ao lado.

Recentemente, li uma entrevista a um reconhecido compositor de música litúrgica. Porque também tenho um interesse particular nesta temática, fiz um esforço por perceber o que estará nas entrelinhas das palavras do entrevistado e, sobretudo, a postura que a hierarquia da Igreja tem neste particular.

A certa altura o entrevistado enumera alguns dos instrumentos que, no seu entender e no entender de especialistas, como ele, em canto litúrgico, são os mais apropriados. Também dá exemplos de outros que, à partida, devem ser rejeitados. Percebi, então, que a categorização obedece a uma lógica rítmica. Ou seja, os instrumentos musicais a evitar são, na sua maioria, instrumentos que, formalmente, marcam o ritmo e a cadência da interpretação. Concretamente, refere a guitarra eléctrica e bateria.

Independentemente das razões que subjazem a esta opinião, há uma coisa que me faz confusão. A Igreja e os seus momentos celebrativos são, consabidamente, marcados pelo ritmo. Não raras vezes, em formações e conferências feitas nesse contexto, há importantes alusões ao ritmo:

  • o ritmo divino que, como ilustra o Génesis, obedece a uma cadência própria;
  • o ritmo do Espírito que, não por acaso, encontra um paralelismo com o movimento da respiração no inspirar/expirar;
  • o ritmo do coração que bate compassadamente (e que serve de bitola para os andamentos musicais);
  • o ritmo da vida, nas suas diversas fases;
  • o ritmo litúrgico que tem a sua génese no ritmo da vida e da própria natureza.

Enfim, o tema do ritmo é omnipresente em qualquer discussão teológica.

Isto leva-me a concluir que, no mínimo, existe alguma incoerência entre o que se “prega” e o que se “pratica”. A práxis e o logos não parecem ter a consonância devida.

Pergunto para mim mesmo: se o ritmo ajuda a marcar o compasso dos participantes na assembleia, não faria sentido dar mais importância à presença de instrumentos rítmicos na celebração religiosa?

Post scriptum: a questão da sensibilidade interpretativa ficará para outras núpcias…

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#garatujas, #maufeitio

Provocar

Na minha actividade profissional aprendi que o pior que podemos fazer é tentar agradar às pessoas. Ou, pelo menos, ao maior número de pessoas possível. Na prática, quando produzo uma obra gráfica e visual – design, arte? –  não me interessa se ela vai agradar ou não a quem a vê. Não me interessa o número de “likes” que faz. Quero dizer: é importante para mim que gostem do que faço, porque isso alimenta a minha motivação, mas não é isso que vai definir o meu rumo, as minhas opções e o meu estilo.

Um artista – deixem-me usar esta palavra -, quando cria, tem um objectivo: provocar. Provocar, no verdadeiro e original sentido da palavra: estimular, desafiar, apelar para um sentido específico, numa determinada direcção. A obra não é produzida para quem gosta, nem para quem não gosta. A obra será apenas para os que fazem a pergunta certa, independentemente de gostarem ou não. Todavia, para fazer a pergunta certa será preciso estar na pele do criador. Talvez, neste particular, haja muito a aprender com as crianças que, na sua simplicidade e sede de conhecimento, fazem “a” pergunta, a mãe de todas as questões: porquê? E esta interrogação é, no fim, a verdadeira provocação.

Assim, quando vos passar pela frente uma criação artística, nem precisam de a apreciar. Bastará perguntarem “porquê”. Por que é que o artista escolheu este desenho? Por que razão pintou com aquelas cores? Questionem… É isso que ele espera, e não o favor de gostarem.

Post Scriptum: E com este #maufeitio espero ter retomado a actividade no blogue, depois de tão longa ausência…

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