#maufeitio

as batidas do teu coração

Passar ao lado.

Passar ao lado.

Recentemente, li uma entrevista a um reconhecido compositor de música litúrgica. Porque também tenho um interesse particular nesta temática, fiz um esforço por perceber o que estará nas entrelinhas das palavras do entrevistado e, sobretudo, a postura que a hierarquia da Igreja tem neste particular.

A certa altura o entrevistado enumera alguns dos instrumentos que, no seu entender e no entender de especialistas, como ele, em canto litúrgico, são os mais apropriados. Também dá exemplos de outros que, à partida, devem ser rejeitados. Percebi, então, que a categorização obedece a uma lógica rítmica. Ou seja, os instrumentos musicais a evitar são, na sua maioria, instrumentos que, formalmente, marcam o ritmo e a cadência da interpretação. Concretamente, refere a guitarra eléctrica e bateria.

Independentemente das razões que subjazem a esta opinião, há uma coisa que me faz confusão. A Igreja e os seus momentos celebrativos são, consabidamente, marcados pelo ritmo. Não raras vezes, em formações e conferências feitas nesse contexto, há importantes alusões ao ritmo:

  • o ritmo divino que, como ilustra o Génesis, obedece a uma cadência própria;
  • o ritmo do Espírito que, não por acaso, encontra um paralelismo com o movimento da respiração no inspirar/expirar;
  • o ritmo do coração que bate compassadamente (e que serve de bitola para os andamentos musicais);
  • o ritmo da vida, nas suas diversas fases;
  • o ritmo litúrgico que tem a sua génese no ritmo da vida e da própria natureza.

Enfim, o tema do ritmo é omnipresente em qualquer discussão teológica.

Isto leva-me a concluir que, no mínimo, existe alguma incoerência entre o que se “prega” e o que se “pratica”. A práxis e o logos não parecem ter a consonância devida.

Pergunto para mim mesmo: se o ritmo ajuda a marcar o compasso dos participantes na assembleia, não faria sentido dar mais importância à presença de instrumentos rítmicos na celebração religiosa?

Post scriptum: a questão da sensibilidade interpretativa ficará para outras núpcias…

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#garatujas, #maufeitio

Provocar

Na minha actividade profissional aprendi que o pior que podemos fazer é tentar agradar às pessoas. Ou, pelo menos, ao maior número de pessoas possível. Na prática, quando produzo uma obra gráfica e visual – design, arte? –  não me interessa se ela vai agradar ou não a quem a vê. Não me interessa o número de “likes” que faz. Quero dizer: é importante para mim que gostem do que faço, porque isso alimenta a minha motivação, mas não é isso que vai definir o meu rumo, as minhas opções e o meu estilo.

Um artista – deixem-me usar esta palavra -, quando cria, tem um objectivo: provocar. Provocar, no verdadeiro e original sentido da palavra: estimular, desafiar, apelar para um sentido específico, numa determinada direcção. A obra não é produzida para quem gosta, nem para quem não gosta. A obra será apenas para os que fazem a pergunta certa, independentemente de gostarem ou não. Todavia, para fazer a pergunta certa será preciso estar na pele do criador. Talvez, neste particular, haja muito a aprender com as crianças que, na sua simplicidade e sede de conhecimento, fazem “a” pergunta, a mãe de todas as questões: porquê? E esta interrogação é, no fim, a verdadeira provocação.

Assim, quando vos passar pela frente uma criação artística, nem precisam de a apreciar. Bastará perguntarem “porquê”. Por que é que o artista escolheu este desenho? Por que razão pintou com aquelas cores? Questionem… É isso que ele espera, e não o favor de gostarem.

Post Scriptum: E com este #maufeitio espero ter retomado a actividade no blogue, depois de tão longa ausência…

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#garatujas, #maufeitio

Lei de Murphy aplicada ao design

1. “Se precisas de imprimir algo 10 minutos antes da entrega, a impressora vai ficar sem tinta”

2. “Se a impressora ficar sem tinta e tiveres pressa, não terás nenhum cartucho a mais. O mesmo irá acontecer no que toca a DVD’s virgens e a Pen’s”

3. “Se não tens o site funcional para o Internet Explorer 6, vai ser exactamente esse browser que o cliente vai usar”

4. “A tua família e os teus amigos vão pedir-te serviços gráficos e não te vais atrever a cobrar”

5. “A maioria das pessoas pensa que tu, sendo designer, tens que saber arranjar os problemas dos computadores deles”

6. “Se usares o ‘Lorem Ipsum’ como texto de exemplo, haverá sempre alguém que vai dizer que ninguém entende o que está escrito/que ninguém entende latim”

7. “Se pedires um logótipo em alta resolução, vão-te enviar um print screen do computador a mostrar o logótipo…e vão colocar a imagem num ficheiro Word”

8. “Quando te lembras de guardar um projecto a cada 5 minutos, nada de anormal acontece, mas quando passaste horas a trabalhar, sem guardar o trabalho nenhuma vez, vai ser nessa altura que o computador vai crachar ou que a luz vai falhar”

9. “As outras pessoas têm sempre um familiar que tem jeito para isso e faz de borla”

10. “Toda a gente quer dar uma opinião em relação ao que criaste, mesmo que não perceba nada do assunto”

poeta sem poesia: Lei de Murphy aplicada ao design.

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#diário, #maufeitio

Uma questão de verticalidade (ou: parabéns Quéli e Tiago)

O fim de semana foi diferente. Festivo. Fomos até às margens do Dão participar n”O” momento da vida do Tiago e da Quéli. Até aqui tudo bem. Seria um casamento normal, tirando o pormenor de não contemplar cerimónia religiosa. Falo de mim que já fui a muitos enlaces e todos eles se passaram (mais ou menos bem) em igrejas e com direito a padre. Este não.

O Tiago conheço-o há alguns anos. Era ele monitor na colónia de férias de que eu era coordenador. Imediatamente lhe reconheci a excelência no que fazia e a empatia que criava com as pessoas que o rodeavam. Para mim ficará sempre no quadro de honra dos rapazes e raparigas que serviram na casa amarela. E dentro de mim uma vaidade peculiar por tê-lo tido sob as minhas “ordens”. Da Quéli não posso dizer muito. Mas se ele a quis para companheira de aventuras, terá a minha estima porque, decerto, partilhará do carácter da sua cara metade.

Voltemos ao casamento. Numa quinta, como muitos. Com convidados, como muitos. Comida em abundância como muitos. E… honestidade, como poucos.

A cerimónia foi simples. À boa maneira “civil”, a senhora funcionária cumpriu a sua função e até disse algumas palavrinhas que passaram bem por homilia. De permeio, os progenitores dos nubentes usaram da palavra para desejarem votos de felicidades. Nesta parte o pai do Tiago disse os votos do dia, palavras essas que mais tarde lhe agradeci pessoalmente por serem a pedrada no charco que precisamos e, sobretudo por revelarem a essência do que deve ser a natureza humana e, neste caso, dos protagonistas da festa.

Declarou-se católico. Com quotas em dia, que é como quem diz, praticante. Que tinha pena, nessa sua condição, por o seu filho não ter optado pela cerimónia religiosa. E deu-lhe os parabéns por isso mesmo. As pessoas querem-se com coluna vertebral; delas espera-se coerência e muita verticalidade nas opções que tomam. Porque não é fácil fazer uma decisão deste calibre. É muito mais agradável fazer as coisas porque é costume, porque é assim que os outros gostam, porque é mais giro… É agradável e hipócrita.

Estes noivos conquistaram-me por isso: foram fiéis a si próprios e, com isso, provam que essa fidelidade é o “leitmotiv” que os manterá unidos e firmes pela vida fora.

Enquanto escrevo isto, assumo inequivocamente a minha opção cristã e a minha religiosidade. E costumo dizer que em 10 casamentos pela Igreja, deverá haver apenas 1 ou 2 que o faz conscientemente e porque essa é a verdadeira opção dos noivos. Todos os outros serão fogo de vista. É duro, mas é verdade.

Quéli e Tiago: obrigado pelo dia. Independentemente do local paradisíaco, dos convidados fantásticos, da comida abundante, agradeço a vossa presença na vossa festa. Pode parecer estranho, mas já fui a tantas onde os anfitriões estavam ausentes, deixando a responsabilidade a uma máscara de si próprios. Vocês estiveram connosco e deixa-me feliz saber que tenho amigos assim: que estão e são de forma íntegra. Isso é motivo de sobejo para desejar e ter a certeza de que vão ser felizes.

E deixo-vos com o texto (bíblico, curiosamente) onde se inspira a vossa aliança:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.
Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me aproveita.

O amor é paciente,
o amor é prestável,
não é invejoso,
não é arrogante nem orgulhoso,
nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça,
mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais passará.
As profecias terão o seu fim,
o dom das línguas terminará
e a ciência vai ser inútil.
Pois o nosso conhecimento é imperfeito
e também imperfeita é a nossa profecia.
Mas, quando vier o que é perfeito,
o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Mas, quando me tornei homem,
deixei o que era próprio de criança.

Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.

1 Cor 13 1-13

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#maufeitio

BEeeeh!

Há aí alguém de bom senso que leve a sério a actividade “política” do bloco de esquerda?

(Aqui há uns dias ouvi alguém dizer que a crise económica é apenas mais um sintoma da crise de valores. Obrigadinho por ajudarem a afundar a sociedade.)

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#maufeitio

Obrigadinho.

Obrigado, senhores sindicalistas e grevistas.

Pela Hermínia, de 76 anos (e muita gente como ela), que não pôde ter a sua consulta no hospital, pela qual esperou durante dois anos e meio.

Pelo André, de 32 anos (e muita gente como ele), que teve perdeu clientes por ter de estar em casa com o filho de 4 anos.

Pela Joana, de 28 anos (e muita gente como ela), que esteve três horas à espera de transporte para poder ir trabalhar.

Pelo Martim, de 12 anos (e muita gente como ele), que não teve aulas durante todo o dia e que vê atrasar o programa que devia ser dado.

Pela Beatriz, de 35 anos (e muita gente como ela), que não pôde apanhar o avião para fazer a sua visita anual à família que se encontra em França.

Pelo Joaquim, de 82 anos (e muita gente como ele), que não pôde aviar o seu medicamento na farmácia e pôr, assim em risco a sua vida.

Pela Antónia, de 45 anos (e muita gente como ela), que viu o seu fraco negócio perder ainda mais clientes e ter de adiar o pagamento da renda.

Obrigado, por ajudar a tornar este país um pouco menos produtivo e um pouco mais insuportável.

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