geocaching

Os bravos do Salsinha

#48 Há pontos por onde vamos passando, assim a modos que despercebidos, distraídos, que escondem e perpetuam histórias de gentes que viveram uma vida de heróis e a terminaram de forma trágica. Vidas simples que passam por ganhar o sustento dos que lhes são mais próximos, desafiando as ondas e as marés que escondem escolhos. Homens e mulheres que não aparecem em capas de jornais, tem têm os tempos de antena daqueles que têm a sorte de serem reconhecidos. E eles lá estão, continuamente a lutar pela sobrevivência no deu dia-a-dia, ganhando o suado pão que, à noite, irão colocar no prato dos seus filhos.

Depois, finam-se. E pronto. O seu legado fica completo e dá lugar a outros que continuam novas histórias com o mesmo enredo. Na praia da Vieira, está um singelo monumento que tenta lembrar alguns desses homens fortes que, contra vontade, acabaram por abandonar precocemente os seus lares. E todos os dias, a toda a hora, passa gente que ignora a história que essa pedra tem vontade de gritar aos quatro ventos.

Eu seria mais um desses turistas, não fosse o acaso de procurar a “cache” em causa. E assim, num ápice, um vulgar monumento passa a ser objecto de celebração e memória. Afinal, ali atrás havia uma história para contar e ser lembrada. Cada passo que dei, foi um ritual que homenageava cada um daqueles náufragos. A minha busca, era a metáfora imperfeita da faina. Procurar o melhor lugar, já no mar alto, para lançar as redes a ver se vinha o peixe. Nem sempre com bons resultados. Numa das incursões, foi o sucesso: no emaranhado dos fios vinha agarrado o “sustento”. Ao contrário dos heróis da história, acabei por chegar são e salvo à toalha onde se juntava a família, ali, à beira-mar.

O naufrágio de um dos barcos da companha de Manuel da Silva Sapateiro, na manhã de sexta-feira de 15 de Novembro de 1907, foi o maior desastre com perda de vidas de que há registo nos anais da praia, e constituirá para sempre um marco histórico na memória colectiva dos pescadores da Praia da Vieira.
Os nomes dos pescadores mortos, ou feridos no naufrágio são o triste epitáfio de uma época marcada pela mais extrema miséria, aceite com fatal resignação pela simplicidade e humildade das gentes da praia, vergadas ao seu amargo destino, obrigadas a pagar ao mar com o oneroso tributo das suas vidas, o amargo pão de cada dia.
O luto pelos mortos, veio ensombrar ainda mais a já negra e miserável existência daquelas pobres gentes, “os párias do mar”, como Aquilino Ribeiro os apelidou, no seu romance “A Batalha Sem Fim”.
Especialistas e eruditos locais como Hermínio de Freitas Nunes, mais do que como discentes, são sobretudo necessários, como docentes ou investigadores, em quaisquer escolas que de facto queiram sair de si próprias e ser capazes de estudar algo mais do que o seu próprio umbigo.
Que pode haver, de resto, mais interessante do que a história de homens verdadeiros – homens corajosos – que é a história dos pescadores…?
A descrição do acidente marítimo é relatada por Francisco Oneto Nunes, na obra “Vieira de Leiria – A História, O Trabalho, A Cultura”, que lembra as palavras do escritor vieirense António Vitorino sobre o assunto. É referida a tensão “quando os homens dentro do barco se apercebem de que estão à beira do desastre, sempre seguidos na sua angústia por aqueles outros que estão em terra sem lhes poderem acudir”.
Enquanto uns caíram ao mar com o impulso da onda e nadaram, outros ficaram presos no barco abalroado e morreram, fazendo com que este trágico acidente fosse perpetuado, pelos piores motivos, na memória da população de Vieira de Leiria.
Um século depois, em 15 de Novembro de 2007, a Câmara Municipal da Marinha Grande homenageou os bravos homens que perderam a vida nesse naufrágio, erigindo junto do “Monumento ao Pescador”, uma escultura em honra dos 13 bravos que constituiam a tripulação do “Salsinha”.

Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s