#maufeitio

armado em historiador

Pela primeira vez, contribuí para essa grande confusão que pode ser a wikipedia, com a edição substancial de uma entrada. A motivação foi uma conversa de café ainda há pouco que versou sobre a origem dos topónimos, concretamente o da freguesia de que faço agora a minha morada. E falámos, sobretudo, da confusão que as gentes fazem quando tomam o que é assumidamente lenda por factos comprovadamente históricos. Nesse aspecto, há uma terra no concelho de Leiria que é exemplar. Ora, vejamos o que reza a lenda:

Fazia o Senhor Rei D.Dinis e a sua Santa mulher, a Rainha Isabel, uma mais demorada pousada em Leiria, talvez para descansar dos muitos a fazeres do seu alto cargo. Um dia, o Rei passeando no seu fogoso corcel, galopou, galopou, campos fora, e, lá longe, num pequeno lugar vê uma camponesa formosa como nenhuma outra se vira ainda em muitas léguas ao derredor.

Apaixonou-se o Rei pela camponesa e ali, naquele lugar, no meio do campo florido de papoilas e malmequeres, nasceu naquele dia um grande amor. As visitas do Rei ao seu grande amor continuaram e tornaram-se conhecidas nas redondezas, e, àquele lugar começaram a chamar Amor.

Também a Rainha soube dos novos amores do seu marido e Rei e, para lhe mostrar a sua reprovação sem o melindrar, mandou uma noite alumiar o caminho por onde o Rei, seu esposo, deveria regressar a Leiria.

D. Dinis, ao dar com as veredas, por onde voltava, com grande alumiação, de muitos fogachos, viu estar ali uma muda intenção crítica da Rainha, e exclamou: “Até aqui cego vim!” E o sítio onde começavam as iluminarias passou a chamar-se “Cegovim”, que, por uma natural corruptela popular se chama hoje Segodim.

Posto isto, eis o que se me apraz dizer:

Como é natural acontecer com a maior parte dos topónimos, a lenda acerca da origem do nome de Amor é apenas uma recriação romântica popular que não se prova com factos históricos. Aliás, constatamos que os habitantes de Amor insistem frequentemente nesta mesma lenda como sendo um facto histórico comprovado pelo que muito dificilmente acolherão ideias contrárias. No entanto, através da análise da própria narrativa, juntamente com a fonética do topónimo, reparamos em incongruências que, de facto, deitam por terra o que se reconta. Vamos por partes:

1. A narrativa da lenda

a) A prosa é escrita com laivos de poesia, característica própria de uma criação romanceada. A confusão nasce a partir do momento em que são introduzidas personagens históricas.
b) O topónimo, segundo a lenda, nasce de uma relação amorosa supostamente secreta e, pela descrição, tem origem quase simultânea com essa mesma relação, o que muito dificilmente se comprovaria em qualquer circunstância.
c) A origem do topónimo Segodim como sendo de um curto diálogo entre duas pessoas também não colhe como facto histórico.
d) Geograficamente, Segodim não se encontra, bem pelo contrário, no trajecto entre Leiria e Amor.

2. A fonética

a) A palavra Amor para designar a povoação em causa deve ser pronunciada como os próprios habitantes o fazem, abrindo a primeira vogal. Temos assim uma pronúncia que, graficamente, teria esta escrita: Ámor. Desta forma, não podemos deixar de achar incongruente que um fonema pronunciado de forma diferente queira assumir o significado do respectivo homógrafo.
b) Tudo indica que o topónimo Amor tenha origem árabe, como o têm muitos topónimos portugueses, tendo evoluído para a actual forma que fácil e compreensivelmente se confunde com o substantivo amor que designa relação amorosa. E por isso mesmo, tudo indica também que a origem da povoação seja anterior à existência do próprio rei D. Dinis e da própria localidade.

E, já agora, estou a aceitar contributos…

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3 thoughts on “armado em historiador

    • P.A. diz:

      Goethe: já a li assim muito na diagonal. Assim que puder, tratarei de seguir orientações. Alerto, no entanto, para o facto de que é a primeira vez que entre no “vosso” wikimundo

  1. GoEThe diz:

    Sem problema, a certa altura também entrei pela primeira vez nesse mundo que agora é “nosso”, já que lá entrou. Se precisar de alguma ajuda, basta contactar-me.

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