#diário

num cantinho da sala

A propósito de coisas que não vêm ao caso, ouvi hoje:

— E o presépio lá está, num canto da sala…

“Estar num canto” é daquelas expressões em que eu não gostaria de ser palavra. Pode significar pôr de lado sem deitar fora. Como se de uma sentença se tratasse: mesmo que não sejas suficientemente inútil para te pôr a milhas, tolerarei a tua presença desde que ela não ocupe muito espaço na minha vida. É isso: tolera-se. Mas não é por acaso que “tolerância” e “tolice” são palavras que se arriscam a ter os mesmos genes e serem, por conseguinte, consanguíneas. E o presépio tem, por ora, essa particularidade: tolera-se, desde que haja um bom espaço para os enfeites de uma árvore de nylon e presentes mandados vir de um qualquer armazém da europa que serviu de entreposto da china.

Lá em casa, o presépio não está num canto. Está quase a um canto. No canto dos brinquedos dos putos, que também é na sala. Era o que restava ocupar, sabendo que seria temporário. Mas não deixa de ser um canto. No caso, um bom canto. Um encanto, então. Faz companhia à tal árvore e estão os dois em cima do tapete comprado no ikea. Daqueles verdes, que têm estradas e estacionamentos de brincar. Baratinho, por sinal. Estava em promoção.

E ao lado, da árvore, do presépio e do tapete, está uma catrefada de brinquedos, empilhados em caixas, num armário a condizer com nada. É lá que um par de pestes se junta para viver aventuras imaginárias de super-heróis que só eles trazem naquelas cabeças. E entre homens-aranha e capitães-américa, há uma vaca, um burro e um indivíduo chamado Zé, mais a mulher, Maria. Curiosamente, o que tem mais poderes até é um garoto, recém-nascido, que substituiu as capas e os collants por uma fralda de pano enrolada à pressa e que percorre a cidade num bólide que, estranhamente, mais parece um masseiro cheio de palha.

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#maufeitio

eu quero um festival só para mim

— Uma vergonha não deixarem entrar uma pessoa às 02h30!

Foi assim que alguém publicou o seu desabafo na rede social por ocasião de um festival organizado na freguesia de Amor. E juntaram-se a ele, mais dois ou três cibernautas, indignados com a suposta prematuridade da hora de fecho da festas. Que era incompreensível, que os festivais não são assim, que também compraram bilhete (que custa 6 euros para os três dias de festival), que não se fecham as portas a ninguém, que… que… que… O rol de críticas, não sendo avantajado, estava bem direccionado.

Num tempo em que se proclama a tolerância — para mim, tolerantismo — à boca cheia, estranha-se a forma como as pessoas se atrevem a debitar as suas opiniões pelo espaço virtual. Mas, mais do que isso, esta situação concreta faz-me trazer à baila algumas considerações.

Desde logo, a forma impositiva como queremos as coisas à nossa medida. Exigir que um evento se adapte ao nosso estilo de vida, fará sentido se for feito por nós e para pessoas como nós. Caso contrário, apenas estamos a querer obrigar os outros aos nossos hábitos e maneiras de pensar e agir. Neste caso concreto, falamos de alguém que gosta de se divertir pela noite fora até o sol nascer. E todas aquelas pessoas que, por obrigações familiares e profissionais, ou até mesmo por princípio de vida, preferem aproveitar o dia enquanto está sol? Ou serão os festivais apenas para o primeiro grupo?

Infelizmente, parece que essa concepção já está entranhada na nossa cultura: a festa faz-se de noite. Ou melhor, de madrugada, até ao sol raiar. Isso tornou-se quase uma obrigação. Parece que, por definição, ninguém consegue divertir-se antes das três da madrugada. E talvez por isso seja comum os programas das festas nunca obedecerem aos horários fixados: uma banda prevista para as 22h00, geralmente actuará pelo menos uma hora depois, na melhor das hipóteses.

A verdade é que isso é apenas uma transposição do que acontece no nosso dia-a-dia. Aquela instituição chamada de “quarto de hora académico” é das coisas mais “non-sense” e estúpidas com que convivemos airosamente sem sequer a pormos em causa. Para mim, é apenas uma faceta da promoção da falta de respeito e do culto das desoras. Objectivamente, as contas são fáceis de fazer: se uma dezena de pessoas marcou o encontro para uma hora e, mesmo chegando nove a tempo, o “quarto de hora académico” invocado pela décima, mais não fez do que deitar fora 150 minutos que tanto jeito dariam.

— Por estas e por outras, que nem sei quais, nem interessa, quero o festival só para mim, que comece às horas a que nem sei que vou chegar!

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#diário

pasquinada

Pode-se-lhe chamar passatempo, hobbie, defeito de formação, sei lá. O que sei é que gosto de esmiuçar as palavras, abrir-lhes as entranhas e procurar o que as fez nascer e dar-lhes vida.

Numa recente estadia em Roma, encontrei, num momento aleatório, a oportunidade de deleite nesta área. Estávamos ali, na praça Navona, quando a interpelação de um dos nossos cicerones — por acaso, uma — nos leva a uma praceta contígua, de nome piazza di Pasquino.

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Verdade seja dita: o lugar não tem nada que os olhos de um turista possam admirar. Estamos em Roma: aquela é uma vulgar praça com construção típica, comércio típico, trânsito típico. Portanto, aparentemente essa vulgaridade seria motivo de desinteresse não fosse o enquadramento histórico daquele espaço.

Pasquino é o nome da estátua parlante mais famosa de Roma.

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De certeza, não será famosa pelos seus atributos escultóricos e beleza estética. Na verdade, parece mais um resto de estátua, arrumada num canto da cidade.

As statue parlanti di Roma ou Congrega degli Arguti foram uma série de estátuas — tradicionalmente seis — em que, a partir o século XVI, se imortalizaram sátiras contra tentativas de repressão de papas, cardeais e nobres. Essas estátuas tornaram-se numa alternativa para a expressão política anónima em Roma. As críticas, na forma de poemas ou gracejos, eram publicadas nas estátuas mais conhecidas de Roma, como uma instância dos primeiros quadros de avisos (cfr. wikipedia).

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O que torna esta em particular tão especial — para além de ter sido a primeira a surgir — é o facto de ter dado origem à palavra pasquim e, por conseguinte, pasquinada.

Hoje em dia, o termo pasquim — que foi título de um semanário satírico brasileiro nos anos 70 e 80 — é comummente depreciativo e significa jornal de baixa qualidade, sem importância, jornaleco (cfr. Priberam).

[Adenda] No Ciberdúvidas fui encontrar, ainda, estas informações:

Pasquim vem do italiano «Pasquino», nome de um sapateiro romano do século XV: à porta da oficina, foi encontrada uma estátua helénica do século III a.C., e criou-se o costume de nela colocar bilhetes satíricos, nem sempre primando pela elevação da linguagem.
Cada um destes recados passou a ser conhecido pelo nome do sapateiro. Pasquino ultrapassou fronteiras e foi aportuguesado como pasquim, denominação muitas vezes pejorativa de um jornal, mas nem sempre.
A história do melhor jornalismo satírico, se quiser ser objectiva, nunca poderá ignorar um periódico brasileiro – chamado, exactamente, “O Pasquim”.

N.E.: Segundo o dicionário Aurélio, a palavra Pasquim significa um jornal ou panfleto difamador ou uma sátira afixada em lugar público. José Pedro Machado conta a história do termo: chegou ao português através do francês, com origem na palavra italiana antiga «pasquino».
Pasquino era o nome de uma estátua mutilada, achada na Rua del Governo-Vecchio em Roma, colocada depois numa pequena praça que acabou por receber este nome. Ficava defronte da estátua de Marfório e os satíricos divertiam-se em afixar perguntas no pedestal de Marfório cujas respostas – já preparadas – eram afixadas no pedestal da estátua de Pasquino. Ele conta que Castelvetro, no livro Ragione d’alcune core (1560), afirmou que o nome da estátua veio de um alfaiate que morava perto do local onde o torso de mármore foi encontrado e que era muito mordaz.
Durante o regime militar no Brasil, foi criado um jornal humorístico que ironicamente recebeu o título de Pasquim. Nele participaram alguns dos mais importantes nomes do humor brasileiro, como Millor Fernandes, Ziraldo e Jaguar. O facto de este jornal conseguir fazer rir a respeito do regime autoritário levou a que o nome pasquim perdesse, no Brasil, um pouco do seu sentido pejorativo. O mesmo não ocorreu em Portugal.

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artes

olhar para cima e espantar-se 2.0

Conforme prometido — a mim mesmo, diga-se —, aqui está a outra igreja que, de entre as centenas que existem em Roma, me deixou de olhos esbugalhados e torcicolo onde assenta a cabeça. A caminho da Igreja de Santo Inácio de Loyola, um dos nossos guias ia dizendo ao que íamos: o enfoque era a “cúpula”. (E, aqui, as aspas nunca fizeram tanto sentido, já que não falamos propriamente de uma cúpula, mas de um tecto completamente plano.) Esta tem a particularidade de iludir o olho do visitante por, à entrada, parecer uma cúpula normal, destacando-se pela sua tez escura.

Porém, estamos diante dum exemplar daquela técnica designada por trompe l’oeil, que se serve de truques de perspectiva para iludir o olhar. Portanto, é isto que, na prática, está pintado:

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Pelo que li, os jesuítas contrataram Andreas Pozzo para fazer aquela pintura, porque fazer uma cúpula como deve ser, iria provocar uma séria derrapagem no orçamento.

Mas, lá dentro, aquela obra viu-se ultrapassada de imediato pela grandiloquência da pintura na abóbada da nave principal, também ela do mesmo autor — por muitos considerada a sua obra-prima — , conhecida por apoteose de Santo Inácio.

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Como se pode verificar, trata-se de uma abóbada normal, semi-cilíndrica, a que o autor, quiçá por inspiração divina, nos deslumbra com isto:

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O efeito da ilusão é tão convincente que o espaço literalmente suga o observador e o incorpora aos eventos mostrados na pintura. Através da contemplação das figuras pintadas no teto, o corpo físico do observador como que perde peso e é atraído para o céu através de uma descrição artística de uma verticalidade até então inédita. (Grau, Oliver. Virtual art: from illusion to immersion. MIT Press, 2004, pp. 48-49. Transcrito da wikipédia)

Infelizmente, não me é possível reproduzir aqui as sensações provocadas e a vontade de estar ali horas a contemplar aquele fresco naquele espaço que acaba por se revelar tão aberto, que nos remete inapelavelmente para o alto, dando continuidade às paredes levantadas pelos cantoneiros.

Tracei aqui umas linhas para se perceber melhor:

E aqui:

De referir que a primeira linha inferior indica a parte superior da parede e, por conseguinte, o início da abóbada propriamente dita, onde pontificam mais dois níveis arquitectónicos e a posterior abertura que remete para a figura central que é o próprio Cristo (e não Santo Inácio, como podem, compreensivelmente, imaginar).

O observador é capturado por um arroubo de beatitude, cuja meta e ponto final é a figura de Cristo… a composição integral pode ser comparada a um remoinho centrífugo que nos faz perder a consciência, transporta-nos para a eternidade e nela nos ancora. (Grau, Oliver. Virtual art: from illusion to immersion. MIT Press, 2004, pp. 48-49. Transcrito da wikipédia)

Gostaria de ter captado imagens de cada rosto, cada elemento, cada motivo daquela imponente pintura. Apesar de não ter sido possível, deixo aqui algumas que têm o condão de nos fazer sentir pequeninos e com uma vontade imensa de também treparmos por aquelas colunas.

Reparem no desdém com que algumas dessas personagens nos olham:

 

Galeria completa

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#diário, artes

ser feliz a olhar para cima e espantar-se

— Gostava que visses! — É assim que, não raras vezes, terminamos uma narrativa para a qual não conseguimos arranjar palavras, as palavras certas, aquelas que levam o interlocutor a ver o mesmo que nós vimos.

A visitar Roma, experimentamos esta sensação no regresso. A sua monumentalidade é qualquer coisa de fascinante. Arregala-nos todos os sentidos e deixa-nos com aquela insatisfação que nos faz desejar voltar e ficar ainda mais tempo, o tempo suficiente para nos deliciarmo-nos com cada pormenor, cada tom de cor, cada toque de cinzel.

Da cidade eterna, há paradigmas dessa monumentalidade que nos vêm logo à mente: a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina, a fonte de Trevi (?) e o Coliseu. Todavia, não menosprezando estes três exemplos, o que me deixou mais com a boca aberta de espanto, foram os tectos de duas igrejas, no meio das 800 que Roma tem. Deixo aqui uma, a primeira da cronologia da visita: a Chiesa del Gesù.

Assim que entramos no edifício, qualquer coisa nos obriga a olhar para cima, num exemplo claro de como a arte tem uma imanente presença do Divino. E experimentem olhar para cima, na vertical: por imperativo fisiológico, não temos outro remédio que não ficarmos de boca aberta. E aconteceu. Lembro-me, como se fosse agora, de que a primeira coisa que vi foi uma nuvem suspensa no ar, da qual se dependuravam, muito etereamente, algumas personagens. (ver a imagem que serve de destaque a este post). Seria apenas um pequeno pormenor que me obrigaria a uma exclamativa incursão por todo o tecto do edifício de que a imagem seguinte revela a nave principal.

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Voltando à nuvem, o pormenor que me deixou espantado foi, exactamente, a sua aparente tridimensionalidade. Sim, APARENTE; porque estamos a falar de uma vulgar abóbada cilíndrica completamente lisa, apenas recortada pelo alto relevo dos elementos em talha dourada. E confesso que ainda hoje terei algumas dúvidas de que a dita talha seja mesmo em alto relevo e não uma simples e ilusória pintura como os restantes frescos da igreja. O artista — Giovan Battista Gaulli — não deixou os seus créditos por pincéis alheios e criou qualquer coisa de fantástico e sublime, dando-se ao trabalho de escurecer determinadas zonas da película dourada, criando aquele efeito assombroso.

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Essa técnica, conjugada com o facto da pintura sair dos espaços definidos pelas molduras, está presente em todo edifício.

Repare-se no escurecimento de um pormenor escultórico:

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E, agora, digam lá se é evidente que aqueles elementos são, de facto, esculturas. Não serão pinturas, tal como os restantes?

Depois desta visita, acrescentei mais um ponto à minha wishlist: fotografar cada rosto daquela imensa obra de arte. Por agora, apenas vos convido a observá-la mais em pormenor através destas fotografias que vos disponho.

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#diário, #maufeitio

crónica de uma derrota anunciada

Foi no dia seguinte à primeira semifinal do Festival RTP da Canção O meu colega de carteira abriu a conversa assim:

— Então, que achaste do festival, ontem?

— O costume. — Foi o troco que dei à pergunta.

Falarem-me daquilo, era tocarem num assunto que me dava náuseas. “Gómitos”. Estávamos a falar de um programa, ícone da minha infância e adolescência, a que a RTP tinha feito o desfavor de tratar tão mal durante os últimos anos. Lembro-me (toda a gente se lembra) do tempo em que a coisa era um marco social e que fazia reunir Portugal inteiro em frente à caixa de tubos catódicos.

A minha resposta foi ainda mais seca por, num dos meus zappings, ter dado de caras com o programa. Passei rés-vés e, naquele momento, vi um indivíduo com ar de sem-abrigo contorcendo-se de dor, e a queixar de qualquer coisa que não percebi muito bem. Mudei de canal, e aquela imagem espasmódica ficou-me na mente, a confirmar o tão mal tratado estado do festivaleiro programa.

— Aquilo é muito mau. — Continuei numa assertividade de quem bastou meia dúzia de segundos para tirar a conclusão mais lógica e sensata. Expliquei o que tinha visto.

O meu colega de carteira, acabou por revelar-me no youtube a música que povoava aquele recanto obscuro da minha memória:

— Foi mesmo essa! — Confirmei com a imensidão de um desdém que ficou ainda maior com a resposta dele:

— Esta música foi a melhor! É uma grande música.

Não podia ser. Várias coisas: ele perder tempo a ver cenas deprimentes, um festival que já não fazia sentido, o contrário da minha opinião. Só podia estar no gozo. Mas não estava. Disse-me que aquele indivíduo de casaco seis tamanhos acima, já tinha participado noutro concurso televisivo do género. Mas na altura parecia bem outro. Eu até simpatizava com ele.

— Tinha voz, talento… estragou tudo! — Afirmei desconsolado.

— A música é boa, a melhor. Vai ter a melhor classificação na eurovisão.

— ´Tás a gozar.

— Apostamos já!

— Uma pizza?

— Feito!

Numa boa aposta, ficamos todos a ganhar: se ele perder, paga, e eu como; se eu perder, como na mesma. O gasto não seria muito… Engraçado é que, neste raciocínio, já havia, inconscientemente, uma porta entreaberta para a derrota, a minha derrota.

Os dias seguintes, inevitavelmente, marcariam esta disputa. Estando eu do outro lado da barricada, tudo faria para, ao menos mentalmente, convencer-me de que ganharia. Secretamente, não fosse dar o braço a torcer, ouvia o tema, às escondidas, e percebi que tínhamos ali uma música. Que até a cantarolava, assim baixinho, para ninguém ouvir. Não daria parte de fraco.

A par disso, tentei saber mais sobre o miúdo que se vestia e cantava de maneira estranha. Garoto inteligente, percurso musical bem alicerçado, discurso escorreito e assertivo, não seria por aqui que não tinha a minha admiração, também ela secreta.

Dei por mim a gostar de tudo e até a indumentária dele já parecia assentar-lhe que nem uma luva. Todavia, aquela ideia que pairava no ar de termos mais um herói nacional feito à pressão, com manifestações de amor eterno aos pulos canais de comunicação, me fazia reforçar a urticária quer eu deixava transparecer. Isso, e hashtags parolas.

A esperança da minha vitória na aposta estava, neste momento, apenas sustentada pela história: Portugal sempre foi um patinho feio nestas lides.

Para espanto meu — nosso — a europa achou, que desta vez, seria uma música a ganhar o festival. Em vez dos artefactos pirotécnicos. E fizemos festa por isso. Desta vez, os bons ganharam aos maus. E eu perdi. E festejei a minha derrota.

P.S. Ainda hoje me perguntam “então, não gostas da música do Salvador?”. A verdade, é que nunca disse isso…

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#maufeitio

ensinar a missa ao padre

Há três assuntos que devem ser evitados em discussões públicas: futebol, política e religião. Foi o que me ensinaram, comprovei-o na prática e é do senso comum. Infelizmente, este senso não é assim tão comum como o pintam. A começar pelo meu que, invariavelmente sente uma atração especial por este abismo de argumentações. Desta vez, calhou o terceiro na rifa. Falar de religião é coisa funesta. Seja com quem for. Até com padres, como foi o caso.

Verdade seja dita, falo muito com padres. Tenho muitos amigos padres e, por isso, não é intenção – longe disso – generalizar. Mas esta ficou-se-me atravessada aqui na zona do cabeção. Não cometo nenhuma inconfidência, porque está tudo aí, à distância de um clic, disseminado pela rede.

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Caramba, é assim que ilustras um trecho do novo testamento?

Aconteceu horas daquele sismo que nem senti: no perfil pessoal de um prelado, uma foto dizia-me “olha para mim”. Era uma caveira, em fundo escuro, reminiscências gothic. Ao lado, uma citação bíblica onde a palavra morte abafa por completo todas as outras. Se o gosto, sendo uma opção, era duvidoso, já o texto a que a imagem servia de ilustração, seria bem actual se estivéssemos na idade média. Não sendo estas as palavras, a ideia está aqui: as catástrofes naturais são recados do divino para quem o quiser ouvir. Grosso modo, quando troveja é Deus a ralhar connosco.

Não me benzi, mas senti um valha-me Deus a subir pela espinal. Há quem lhe chame arrepios. A ideia até nem é pouco habitual. Como diz a Raposa de Saint-Exupéry: vê-se cada coisa… Agora, ler isso de um padre nesse grande púlpito que é a social web, deixa-me em pior estado que vergastadas de cilício.

– Caramba, és padre, devias anunciar o mesmo Deus que Jesus te ensinou a pregar! Sim, aquele Deus que é Pai, Mãe. Aquele que vai à procura da ovelha que se perde, e a abraça quando a encontra. Aquele que acolhe o ladrão, o cobrador, a adúltera… Mas, não; fazes questão de nos ameaçar com o fogo dos infernos e o diabo a sete. Vade retro.

Ainda esbocei uma argumentaçãozita em vários comentários. Também tive a ajuda de outro padre que estava no mesmo lado da barricada que eu. Depressa desisti(mos). Como sói dizer-se: é chover no molhado. A palavra final acabou por ser de uma das prosélitas, senhora já bem entradota, de crisma recente, funcionária da Universidade Católica desde o ano anterior ao meu ingresso para conclusão do curso de Teologia: “se calhar é melhor ir-se embora; quando já não há mais conhecimento, o melhor é meter a viola no saco e ir embora”.

Que bardo que eu sou!

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